Porquê Stanley Kubrick?

Stanley Kubrick é um nome incontornável na história do cinema. Um gigante que após todas estas décadas continua consistentemente a ganhar novos fãs e a tornar-se o realizador favorito de muitos. Mas porquê?

Stanley Kubrick não fez muito filmes. Ao longo de uma carreira de 4 décadas fez pouco mais de 10 filmes mas quase todos eles acabaram por se tornar clássicos de uma maneira ou outra. Nem Alfred Hitchcock conseguiu uma carreira tão consistente.

Além disso, se perguntarem a diferentes pessoas qual é o melhor filme de Kubrick, cada uma vai-vos dar uma resposta completamente diferente. Uns preferem o espetáculo sensorial que é 2001: Odisseia no Espaço (1968), outros preferem a anarquia que é Laranja Mecânica (1971)… Não há consenso porque cada um dos seus filmes poderia ser considerado o pico da carreira de um outro realizador.

Um filme de Kubrick era planeado até ao mais infindável pormenor, mesmo que isso exigisse que ficaria a ser filmado durante mais de um ano, como aconteceu com De Olhos Bem Fechados (1999). Ele chegava a pedir dezenas de takes aos seus atores.

As filmagens duraram 15 meses.

Mas para se compreender melhor Kubrick deve-se voltar às suas raízes. Antes de se ter tornado realizador, ele era um fotógrafo profissional para a revista Look. Por isso é que os seus filmes têm sempre visuais tão bons. Foi alguém que aprendeu a fazer cinema sozinho e que produziu o seu primeiro filme com dinheiro do próprio bolso. Foi assim que surgiu o seu primeiro filme: Fear and Desire (1953). Se bem que isto foi tão mau que Kubrick depois o tentou esconder. Mas vá, foi a sua rampa de lançamento. Depois fez Killer’s Kiss (1955), que já foi melhor mas ainda não mostrava o máximo do seu potencial. Estas duas obras suas foram mais ou menos um teste. Porque todos os filmes que faria a partir daí seriam clássicos.

The Killing (1956) foi um thriller centrado num assalto cuja história se movia com a precisão de um relógio. Logo após isso fez Paths of Glory (1957), um dos melhores filmes de guerra de sempre e algum tempo depois foi convidado para fazer Spartacus (1960), um clássico histórico no qual ele teve muito controlo, mas que mesmo assim foi um enorme sucesso.

“Eu sou Spartacus!”

Aqui vão começar a encontrar um padrão, em que cada uma destas obras caiu na história como grandes filmes mas nunca venceu um único Oscar de Melhor Filme ou Melhor Realizador. Assim começou uma das piores Oscar Snubs da história da sétima arte…

Com Lolita (1962), o realizador desafiou a perceção do que se podia mostrar num filme ao mostrar uma história centrada num predador sexual que procura os afetos de uma menor. A falta de moralidade do protagonista e os temas provocantes foram controversos mas o filme é agora considerado um clássico. Nomeações para os Oscars? Zero.

Um predador a fingir que está a ler…Em seguida, Stanley Kubrick realizou Dr. Estranho Amor (1964), uma sátira que parodia com a situação da Guerra Fria e o possível genocídio nuclear que estava em risco de ser causado pelos Estados Unidos da América e pela União Soviética. Dr. Estranho Amor é tão influente que quando Oliver Stone (Nascido a 4 de Julho e Platoon – Os Bravos do Pelotão) entrevistou Vladimir Putin para The Putin Interviews (2017), convenceu o presidente russo a ver este clássico consigo. Mas Estranho Amor foi um pouco melhor valorizado pela Academia, que lhe deu 4 nomeações. Nenhuma delas levou a uma vitória.

2001: Odisseia no Espaço (1968) é um nome conhecido por quase todos o amantes da sétima arte. É raro que se veja uma lista que compile os melhores filmes de todos os tempos que não inclua esta obra. Mas a Academia só considerou que merecia o Oscar de Melhores Visuais.

Após isto, o realizador escolheu um projeto de menor escala: Laranja Mecânica (1971). Aqui surgiu um clássico cujo nível de violência o fez ser banido da Grã Bretanha durante 27 anos. Teve 4 nomeações mas nenhuma vitória. A Laranja Mecânica seguiu-se Barry Lyndon (1975), um filme com uma fotografia impecável para o qual o realizador precisou de encomendar uma lente especial à própria NASA. A Academia decidiu mais uma vez galardoar apenas prémios técnicos.

Todos os fanáticos pelo género de terror conhecem Shining (1980). Claro que a Academia não prestou atenção. Mas Shining recebeu duas nomeações de destaque…Pior Atriz e Pior Realizador para Shelley Duvall e Stanley Kubrick respetivamente…

Shelley Duvall foi torturada psicologicamente por Stanley Kubrick para ter a melhor interpretação possível e mesmo assim nomearam-na para Pior Atriz…

Nascido Para Matar (1987) também pode ser icónico devido à forma como apresentou o treino de soldados americanos, mas passou relativamente despercebido ao apenas ter recebido a nomeação de Melhor Argumento Adaptado. O perfecionismo de Kubrick levou-o a ficar vários anos sem fazer novo filme, até De Olhos Bem Fechados em 1999. Este foi o seu último filme e para além de não ter recebido qualquer nomeação, a resposta ao mesmo também foi mista.

Apesar de tudo, os filmes de Kubrick continuam a capturar a imaginação de imensas pessoas. Como dava poucas entrevistas, não há respostas definitivas para o que o significado das suas obras. Por isso continuam a poder ser descobertos novos segredos nelas. Nenhum dos seus filmes era igual e quase todos eles continuam a ter uma forte influência no cinema moderno. Eu só vi alguns deles uma única vez mas as suas cenas permanecem vivamente na minha memória.

Talvez o segredo esteja no olhar.

Kubrick mostra-nos que um filme pode ser mais do que uma mera história. Pode ser uma experiência sensorial e apesar de os anos passarem, as suas obras não parecem envelhecer. O seu perfecionismo valeu a pena e a sua genialidade ainda continua e continuará para sempre a servir de inspiração para novos cineastas.