Todos nós gostamos de dizer o quão apocalíptica a internet é atualmente: fake news, political trollbots, iliteracia digital, debates acesos nas redes sociais, sites a invadir a privacidade dos utilizadores, amendas a tentar limitar a liberdade de expressão em meio digital. E, sinceramente, tenho de concordar que é um caos a níveis preocupantes.

Mas vamos ser sinceros: a internet nunca foi calma. Nunca foi um mar de rosas, bondade e boa vontade. Desde o preciso momento em que alguém se sentou à frente de um teclado, o meio digital tem sido uma anarquia regada aos gritos dos inocentes; todo o argumento que se queixe de que as pessoas, nos últimos dez anos, tem destruído o que a internet anteriormente era, é nulo. Porque essas pessoas nunca estiveram na internet “de antes”.

Mais alguém aqui se lembra dessa época, de 2004-2009? Os idos da cultura digital? Deixem-me que vos refresque a memória.

Quem se agarrou ao peito com dores cardíacas ao ver esta imagem está oficialmente habilitado a um desconto sénior.

A cibercultura dessa época era literalmente um bando de adolescentes cheios da normal teenage angst e crises de identidade (eu incluo-me) a, subitamente, terem acesso às modas e às maneiras de expressão de todo o mundo. E, também, a terem uma plataforma onde podiam exprimir os seus conturbados sentimentos de incompreensão a toda. A. Gente.

Quem fala da cultura PC e anti-PC atualmente como sendo o apocalipse não se lembra do que era a cultura LOLRANDOM XD e edgy/”sou diferente, não sou como todos os outros e ninguém me compreende” dessa época. Não se lembram do chatspeak, do MSN, do Myspace, Fotolog e Hi5, da romantização horrenda das doenças mentais como sendo algo quirky e interessante, do emergir da cultura emo…

Foi também nessa altura que se começaram a agregar os primeiros fandoms em meio digital com uma grande quantidade de adolescentes e, com isso, o shipping completamente desgovernado e situações… no mínimo estranhas. Alguém se lembra sequer das yaoi paddles, ou isso é daquelas coisas que decidimos coletivamente nunca mais mencionar?

Vocês queixam-se da internet de hoje. My sweet summer children.

E foi exatamente no seio dessa cultura amorfa e bizarra, nesse cocktail de liberdade criativa e de expressão, necessidade de autoafirmação e um conglomerado cultural adolescente, que nasceu a que viria a ser considerada a pior fanfiction de sempre: My Immortal.

Background e enredo

Se quiserem ter uma ideia do que é o My Immortal e o seu impacto, pensem assim: o My Immortal está para a fanfiction como o The Room está para o cinema. É uma obra tão má, mas tão má, que acabou por ficar nos corações das pessoas e por criar uma espécie de culto.

My Immortal, cujo nome foi baseado na canção dos Evanescence com o mesmo nome, é uma fanfiction de Harry Potter com 44 capítulos que começou a ser publicada no fanfiction.net em 2006. A protagonista é – preparem-se:

Ebony Dark’ness Dementia Raven Way, uma vampira de 17 anos que também é uma estudante em Hogwarts, gótica e satanista. Ebony não só reúne todo esse rol de diferenciais, como também é descrita como sendo estupidamente bonita, com três cores diferentes de cabelo e olhos azuis cristalinos. E isto sabemo-lo logo no primeiro parágrafo.

É difícil dizer que isto tem um “enredo”, porque sinceramente, não tem. É maioritariamente sobre a sua relação amorosa com Draco Malfoy – que a certo ponto do enredo a trai com o Harry Potter, que também é um vampiro.

Mas também é sobre a sua demanda para parar o Lord Voldemort. Para tal, ela não só conta com a ajuda dos já mencionados, mas também da Hermione, que se me lembro bem mudou de nome para B’loody Mary Smith, e do Hagrid, que é um aluno em Hogwarts e um satanista…

Meu deus, isto é tão bom. Eu já me tinha esquecido do quão bom isto é.

Às tantas ela tem de viajar no tempo para seduzir o Tom Riddle e o impedir de se tornar no Voldemort, e acho que há um capítulo em que o Marty McFly do Regresso ao Futuro aparece para a ajudar.

Vale referir, isto também se passou numa altura em que, na subcultura dos fandoms e da fanfiction, havia uma grande caça às bruxas às Mary Sues. Para quem não sabe, Mary Sue (ou Gary Stu, se fosse rapaz) era qualquer personagem mal desenvolvida que tinha visivelmente muitas, muitas qualidades e nenhumas falhas, tornando-as virtualmente perfeitas e cliché.

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Há que referir também que, atualmente, muita gente já veio questionar esta noção e mostrar como o conceito de Mary Sue era falho: as pessoas que abominavam estas “personagens perfeitas” muitas vezes iam atrás de miúdas adolescentes e pré-adolescentes que queriam apenas escrever fanfics indulgentes, onde pudessem ser as heroínas das suas histórias favoritas. E que não estavam a fazer mal a ninguém, estavam só a divertir-se um bocado.

E se formos a ver bem, era também um conceito tendencioso: muitas das coisas que eles apontavam como mal feitas nas Mary Sues – serem as escolhidas, serem desejadas por muitos rapazes, ou serem automaticamente talentosas nalguma coisa – são características muito bem aceites em personagens masculinos.

E My Immortal foi particularmente fantástico porque gira em volta de uma protagonista que reúne desenvergonhadamente todas, mas todas, as características de uma Mary Sue ao estilo tradicional: é boa a tudo, é desejada por todos, é a escolhida e a sofrida e a mártir de todas as causas. Não tem falhas de caráter e está sempre certa.

E são todas estas peculiaridades que fazem um leitor, a certo ponto, pensar: ok, isto já é demais. Será que isto não é uma fanfiction a gozar, uma paródia? Será que a escritora não está mesmo a gozar com a nossa cara?

Mas para isso, precisamos de nos perguntar: quem é que escreveu o My Immortal?

A autora

My Immortal foi publicado originalmente por um user de nome XXXbloodyristsXXX – ainda estamos na cultura edgy de 2004-2008, lembram-se? Mantenham-se comigo.

Nas suas notas de autor no início e fim dos capítulos, e a responder a comentários na fanfic, a autora foi revelando alguns pormenores sobre si, que podiam ser verdadeiros ou não: que o seu nome era Tara Gilesbie, e que tinha uma amiga chamada Raven, username bloodytearz666, que a ajudou a editar e revisar alguns capítulos de My Immortal.

Mesmo assim, muito pouco se sabia sobre Tara. As coisas que ela dizia sobre si própria – como que viajou para o Dubai ou que teve de ir de urgência para o hospital porque os comentários rudes na sua história fizeram com que ela cortasse os pulsos – pareciam apenas os devaneios de uma miúda que precisava de se autoafirmar. Ou, se formos pela teoria de que esta é uma paródia, uma pessoa a satirizar e a hiperbolizar a cultura edgy ao extremo.

E houve muita especulação, muita conspiração envolvida em tentar descobrir quem é na verdade a escritora do My Immortal. Muita gente se chegou à frente a afirmar ser a autora, mas pecou por falta de provas, e nenhuma teoria parecia sólida o suficiente.

Como disse Abraham Riesman na Vulture: a sua identidade é um mistério sem solução.

Isto, até há bem pouco tempo.

Lani Sarem, Rose Christo e Under the Same Stars

Lani Sarem (não, não é a autora do My Immortal. Já lá vamos.)

Durante tempos, pensou-se que My Immortal tivesse sido escrito por Lani Sarem, autora de Handbook for Mortals. Este livro tornou-se conhecido por ser uma das maiores fraudes do NY Times Top Best Sellers de sempre: a editora e a escritora armaram um esquema para comprarem o máximo de livros que conseguissem em diferentes regiões dos Estados Unidos, e assim conseguiram o prestigiado lugar de um best-seller pela NY Times.

Mas este escândalo trouxe à luz o quão má a escrita de Lani Sarem era: mas má de uma forma familiar. Uma forma muito parecida a My Immortal.

E, alegadamente, a vontade de desassociar My Immortal de uma fraude como Sarem foi tanta que, a 27 de agosto de 2017, a suposta verdadeira autora do My Immortal chegou-se à frente, acedeu à sua antiga conta do FictionPress, e escreveu um statement… para dizer que não era a Lani Sarem.

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Depois, bastou apenas uma editora da MacMillan Publishers vir dizer ao Twitter que iam publicar um livro pela verdadeira autora do My Immortal – e que não, não era mesmo a Lani Sarem – para os detetives da internet ligarem os pontos e descobrirem: Under the Same Stars: The Search for my Brother and the True Story of My Immortal, por Rose Christo.

Autora da série Gives Light, Christo anunciou que se juntara à MacMillan para publicar a história da sua infância e adolescência: em 2000, foi separada do seu irmão de cinco anos e metida em casas de acolhimento, por ter sido objeto de pornografia infantil. Tentou por tudo encontrar o seu irmão, mas as agências de acolhimento infantil falharam-lhe, uma e outra vez. E, com a sua irmã de acolhimento, divertiu-se a escrever no computador da escola a que seria conhecida como a pior fanfiction de sempre.

Toda esta história, que se avizinhava devastadora e agridoce, seria desvendada no memoir de Rose Christo, com data de publicação para 29 de Maio de 2018…

Até que a sua publicação foi cancelada.

O cancelamento de Under the Same Stars

A publicação de Under the Same Stars passou da MacMillan Publishers para a sua subsidiária St. Martin’s Press. Rose Christo revelou estar a ser alvo de uma investigação por parte da editora – tudo normalíssimo – para eles averiguarem se o que ela dizia no seu livro era verdade.

E foi aí que foi tudo abaixo: algumas fotocópias de documentos dados por Rose Christo tinham nomes falsos. Em comunicado posterior, Rose afirmou que, por muito parvo que fosse tentar falsificar documentos, o tinha feito para proteger a identidade da sua família. Possuía os documentos originais, mas não os iria revelar porque já tinha sido categorizada de mentirosa de qualquer maneira, e a publicação já tinha sido cancelada.

E assim terminou, por agora, a epopeia do My Immortal.

Conclusão

Vira o disco e toca o mesmo: será Rose Christo realmente Tara Gilesbie?

Christo disse-se desapontada por o seu livro não ser publicado, porque queria iniciar um debate sobre a forma horrenda como as crianças são tratadas nas casas de acolhimento. Será que Christo queria tanto, a todo o custo, gerar este debate, que se encavalitou no misticismo por detrás de My Immortal para conseguir que o seu livro tivesse atenção?

Ou será que ela é mesmo a autora do My Immortal, mas para si a segurança e privacidade da sua família, do seu irmão mais novo, são mais importantes do que contar a história que toda a gente quer saber?

Provavelmente nunca saberemos. Por agora, My Immortal continua um objeto de mistério, envolto em suposições, especulações, e nada de concreto. Um fenómeno cultural do qual só levamos as emoções que nos provoca.

Que, acreditem, podem ser bem contraditórias.


Author

Storytelling, audiovisual, literatura e cultura digital. Fala demasiado e com um sotaque estranho. Quando não está no Cabo Cinético a falar sobre ficção, está no Twitter a queixar-se de coisas no geral.

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