Clássicos Obrigatórios: Tubarão

Espero que tenham estado a gostar da praia porque o filme desta crítica é conhecido por fazer com que as pessoas tenham demasiado medo para ir nadar.

Espero que tenham estado a gostar da praia porque o filme desta crítica é conhecido por fazer com que as pessoas tenham demasiado medo para ir nadar. O filme é Tubarão e, quando foi lançado em 1975, foi um sucesso inesperado que impulsionou a carreira do seu realizador Steven Spielberg.

A narrativa é simples: Uma cidade de verão é aterrorizada por um tubarão branco. Brody, o xerife da cidade vai ter de embarcar numa aventura para o poder parar. Começa assim uma batalha primordial entre o homem e a natureza.

Tecnicamente somos nós que estamos a invadir o território deles…

A premissa parece simples, mas foi incrivelmente difícil de executar. Para o monstro tinham um tubarão mecânico, mas ele estava sempre a funcionar mal. Por isso não o podiam mostrar durante muito tempo. É aqui que entra uma das razões do filme ter funcionado tão bem: limitações.

O tubarão não era propriamente realista, por isso, mostrar menos dele foi a decisão acertada. A sua presença era até marcada pela música icónica de John Williams. Porque apesar de violência conseguir ter impacto, muitas vezes o que mete mais medo é o que não se vê. A nossa mente tem a capacidade de ficar mais assustada com o que imaginamos. Devo dizer que a música é mesmo central na tensão. Condiciona de certa forma, que quando o tubarão aparece sem esse tema, as cenas até assustam mais facilmente porque não estamos à espera delas.

Antes de ter aceite fazer o filme, Spielberg disse aos Produtores que só o faria se o tubarão ficasse sem aparecer durante a primeira hora. De facto, ele nem chega a aparecer durante muito tempo. Quando as personagens finalmente vão à caça, o filme continua-nos a dar formas criativas para marcar a sua presença. Como quando Quint e companhia lhe conseguem prender bóias. A equipa teve de se adaptar a limitações que hoje em dia não existiriam graças ao CGI. E todo o filme só ficou a ganhar com isso.

Oh, os velhos tempos…

Quanto às personagens, todas são fáceis de se compreender. Percebe-se o tipo de pessoas que são em apenas uma cena. O xerife Brody ganha imenso com a atuação de Roy Scheider. Só pelo que está no papel, ele é bom e honrado. O ator acrescenta a aura de um homem com responsabilidade moral e de alguém com experiência na cidade mas que ainda se está a tentar adaptar a ser polícia numa cidade mais pequena. É alguém que sente o peso da sua posição, e o seu cansaço até se torna percetível em cenas em que está a contracenar com a sua família.

Tubarão não tem uma narrativa ou personagens complexas. É o exemplo perfeito de um filme feito para entreter. O conflito pelo qual as personagens têm de passar é direto: Matar um tubarão. Todos os egos estão associados diretamente a esse objetivo.

Apesar desta simplicidade, todas as personagens parecem reais. Até o presidente que deixa as praias abertas após já se pensar que poderá lá estar um tubarão. Ele não é megalomaníaco. Como aquela realidade iria danificar o poder económico da cidade, a sua mente depressa arranja razões lógicas para justificar o que faz.

Exemplo do presidente que não querem para a vossa cidade.

Além disso, apesar de a história se estar a focar mais especificamente em Brody, todas as outras personagens têm histórias para contar. A minha cena favorita do filme foca-se apenas num diálogo: Após Brody ter ido à caça do Tubarão com Quint e um Biólogo Marinho, eles passam a noite a beber e conversar. Dois deles até começam a fazer bonding ao mostrar as cicatrizes num momento de “a minha é maior que a tua”. Pouco a pouco, Quint vai começando a revelar o seu passado e acaba por revelar ter sido um sobrevivente de USS Indianopolis, um navio de guerra que foi bombardeado e cujos tripulantes tiveram em seguida de sobreviver contra os ataques de Tubarões. O excelente timing do ator juntou-se à perceção de storytelling de Spielberg para criar uma cena incrivelmente memorável.

Tubarão tem um conceito muito semelhante ao de B-Movies dos anos 50 e 60. Estes também costumavam lidar com pessoas que tinham de parar monstros supostamente imparáveis. As personagens só tinham uma dimensão e o objetivo também era sempre o de entreter. Mas não eram filmes respeitados e tinham maus efeitos. Aliás, eram “B-Movies” precisamente por isso.

O que separa Tubarão destes outros filmes então? Porque é conceituado e quase todos esses B-Movies não?

É tudo uma questão de execução. Este filme consegue com que o conflito seja real. Envolve-nos emocionalmente com as personagens e quando a narrativa chega ao Tubarão…bem, ele não parece barato.

Pelo menos visto de certos ângulos.

No entanto, nem tudo no filme é perfeito. O problema de Tubarão ter sido tão bom foram as suas consequências no mundo real. De repente, estes animais começaram a ser caçados ainda mais do que já eram e o grande tubarão branco está em vias de extinção. Peter Benchley, o autor do livro original disse já que hoje em dia não teria feito o mesmo livro devido ao seu impacto negativo.

Mas tanto quanto sei até agora, Spielberg nunca se pronunciou acerca do assunto. Quando virem Tubarão, mesmo que fiquem com medo de ir nadar depois, lembrem-se que não é uma representação fidedigna da realidade. Têm maiores probabilidades de serem mortos por um relâmpago do que por um tubarão.

Até os descontos matam mais pessoas.

De qualquer forma, após mais de 40 anos, este é um filme que continua a funcionar. De vez em quando surge por aí um novo filme com um tubarão assassino, mas nunca chega perto deste. Tubarão continua a ser o exemplo perfeito de um bom filme de suspense, com um timing perfeito que não abusa dos “Jump Scares” e mantém uma lógica que nunca abandona.

Tubarão ainda é um dos melhores e mais memoráveis filmes de verão de sempre. Mostrando que o impacto de um filme não precisa de ser sempre intelectual e que ir ao cinema pode ser uma experiência sensorial.